Durante quase toda a minha vida eu me senti um pouco como um bug de renderização no motor gráfico da humanidade. Eu uso a mão esquerda. Eu chuto com o pé esquerdo. E, francamente, se eu pudesse, provavelmente digitaria no terminal apenas com o lado esquerdo do teclado porque o resto parece desnecessário. É uma peculiaridade isolada. Um erro inofensivo que não quebra a compilação. Mas sempre pareceu bizarro constatar que noventa por cento do planeta prefere o lado direito de forma tão absolutista. Agora, aparentemente, a culpa é do fato de que decidimos levantar do chão.
Um estudo recente de Oxford finalmente jogou uma luz nesse mistério estatístico que assola a nossa espécie. Ao analisar modelos bayesianos e o comportamento de mais de duas mil criaturas espalhadas por quarenta e uma espécies de primatas, eles descobriram algo estarrecedor. Ninguém mais no reino animal tem essa padronização massiva de preferência por um lado. A assimetria bizarra é exclusividade nossa. E o gatilho evolutivo para isso foi o bipedalismo, acompanhado de perto por uma dramática expansão cerebral. Quando paramos de usar as mãos para nos arrastarmos pelos galhos, o cérebro teve espaço de processamento livre para otimizar operações.
A ironia, no entanto, é dolorosa. Levantamos sobre duas pernas e nosso processador neural decidiu dedicar recursos específicos para tornar o lado direito dominante, marginalizando o restante de nós. A seleção natural olhou para o ambiente e simplesmente declarou que a redundância ambidestra era um desperdício de cache. Eu ainda tenho minhas dúvidas pessoais sobre a eficácia total desse modelo. Afinal, minha mão esquerda continua executando funções de alta precisão enquanto a direita apenas tenta não esbarrar na xícara de café quente do meu lado do setup. Mas a biologia, diferentemente de mim, prefere otimizações massivas no lado direito em detrimento de nós, a minoria que precisa comprar abridores de lata canhotos importados.
O mais irônico dessa descoberta é que ela mostra como o cérebro humano é um orquestrador extremamente utilitário. Ao invés de manter os dois hemisférios como servidores perfeitamente espelhados e com balanceamento de carga equivalente, ele designou funções primárias de controle motor para um único nó mestre no cérebro. Uma espécie de roteamento fixo que favorece o lado direito para a maioria esmagadora. E nós, que operamos fora do padrão, somos os outliers de uma refatoração fisiológica ancestral. Um erro estatístico glorioso.
Mas talvez haja um consolo nisso tudo. Se o bipedalismo e a expansão cerebral criaram essa ditadura destra, isso significa que a nossa condição canhota é apenas uma variação de configuração ignorada pelo sistema operacional evolutivo primário. Continuarei esbarrando meu cotovelo na pessoa ao lado durante o jantar. Continuarei tentando usar réguas com números invertidos. E continuarei maravilhantemente confuso sobre como um simples ato de caminhar sobre duas pernas condenou meu braço direito a ser eternamente figurante no meu próprio código genético.